sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A árvore dos Desejos



Isso tudo aconteceu poucos anos após a Grande Depressão. O mundo havia mudado, e entre os famintos andarilhos, que procuravam sentido em seus passos descalços, já não havia mais rota, sequer destino a ser percorrido. A direção diária, o mantra do nascer do sol, era sempre o mesmo: era preciso saciar a fome.


O grande truque de sobreviver é mimetizar. Portar-se sem representar ameaça, e infantilizar-se para não ser hostil. Eventualmente, correr. E assim, passar pelos meandros desapercebido, transparecer-se, reduzir a sua forma, e por fim, apropriar-se dos padrinhos que lhe aparecerem durante a sua jornada.


O meu porte infantil me permitiu esconder-me dos riscos, e como gastava pouca energia, a sobrevivência me era mais simples. Diversas foram as minhas famílias, por vários nomes já atendi, enquanto os abrigos me eram oferecidos. Porém, a fome, minha grande amiga, e desesperadora aliada, ensinava-me a conduzir o meu próprio caminho, enquanto meus pares definhavam-se, com os ossos cobertos apenas pela pele no esfriar das noites.


E as noites e dias mesclaram suas cores, se tornando um cinza gigantesco todos os meus momentos.


Este conto é sobre este dia. Certa vez, rastejava minhas secas pernas em busca de alimento. Um passo após o outro, me trouxeram para o topo daquela colina, na qual encontrei a minha frondosa árvore. Os bajuladores seguintes dirão que a sua semente foi trazida pelo vento, não se sabe exatamente daonde, já que não há relato no universo de nenhuma espécie com tais propriedades que vos contarei a seguir. E desde que conto esta história, e isso acontece há algum tempo, jamais alguém soube me dizer de outra árvore que se assemelhasse a esta.


Particularmente, era uma árvore das mais simples. A colina, também. Possuía uma copa de tamanho indiferente as demais, sem raízes grossas ou fartas, indiferenciada, porém produzia uma sombra, que somente aquele que se deitasse no conforto dela, teria uma visão clara e protegida do céu que se abria entre as suas galhadas.


Sentei ao lado do seu tronco e entre as suas raízes, e pude ver todos os arredores deste minúsculo vale que me encontrava, o qual todos nós nasceremos e morreremos. Ter uma visão clara para perceber a atividade dos demais moradores, odiá-los e amá-los remotamente, pois quem se escondia na sombra da árvore, poderia ver tudo e pouco ser visto.


O que vos conto, amigos, não me lembro bem quando aconteceu pela primeira vez. A particularidade desta árvore, que somente eu conhecia inicialmente, descobri ao acaso.


Repousando-me sob as suas galhadas, sonegava o inferno dos dias-a-dias cochilando eventualmente. e no meu mundo onírico, o frescor daquela sombra me permitiu sonhar, condensando a realidade em uma sensação leve de eternidade. Houveram outras árvores, mas somente quando me sentei sob aquela sombra foi que o meu corpo se integrou completamente ao ambiente.


Muito feliz pela minha particularidade, ja que havia descoberto uma sombra tão agradável, sorri. Já deitado no gramado, segurando os seus galhos que desciam em minha direção, sentia-os, e cheirava-os. Estas lindas rugas que carrego ao lado da minha boca vieram desta etapa da minha vida, aonde o sorriso me acompanhara durante anos.


Este breve relato que vos faço, amigos, pode parecer ter sido muito rápido, mas a cada dia que passava admirando o meu esconderijo secreto, correspondia a anos nas vidas alheias á esta comunhão.


Mas tudo isso seria comum as demais árvores, exceto pelo que vos conto agora.


Como faminto, que vos disse que era, minhas esperanças consistiam em olhar no horizonte de uma paisagem, e condensá-la, e acreditar que todas as vocações e sofrimentos que eu tinha cessariam assim que encontrasse o meu abrigo seguro e definitivo. E por anos andei em busca do horizonte.


E neste belo dia, cansado dos passos que havia dado, e por fim, com medo de nunca encontrar o meu sonhado repouso, chorei. Não foi um choro contido, porém copioso e sonoro. Me escorriam pelos cantos do rosto descontroladamente as lágrimas, que logo atingiram o chão. E fez-se o espetáculo deste conto que vos relato. Sim porquê, cada gota que escorria no meu rosto, a árvore absorvia e gerava uma fruta encorpada, logo acima dos meus olhos mareados. E esse pêssego, esse manjar, era deliciosamente saboroso, rico em cores e textura de uma pele que jamais hei de esquecer. Para um andarilho, poderia chamar aquilo de milagre, de oferenda. Eu encarei aquele momento como o meu "encontro". Ao acaso, sob a tutela do destino, havia encontrado o meu horizonte. E decidi encerrar a minha busca naquele momento, sob as galhadas que me deslizavam sobre o rosto.


E como vos disse, outra propriedade desta árvore, nota-se em uma compactação do tempo. Somente quem amou, ou sente que pode se amar, notará que o tempo é irrelevante nos períodos destinados aos encontro da alegria.


E o tempo, que outrora fora de desgraças, foi sendo retomado pela ordem da sociedade. O ambiente foi sendo reconstruído as margens daquela colina, enquanto eu ainda me deleitava pelos suculentos frutos diversos que eram extraídos das minhas lágrimas. E assim, o tempo passou diante dos olhos da árvore e daquele que em sua sombra repousavam, pois haviam esquecido de olhar para os outros horizontes.


Enquanto a árvore crescia, cada vez mais chamativa e frondosa, inincomparável com as dimensões do primeiro encontro, eu, por minha vez, encontrava-me cada dia mais faminto, pois os frutos já começavam a sentir um gosto de aguado. E assim, a árvore desenvolvia, e seus galhos tornaram-se mais altos que as colinas que a escondiam no vale.


E assim, transeuntes, pouco famintos, descobriram o meu segredo, a minha sombra. Eram aos pares, que sentavam-se ao meu lado, chorando cada um por sua vez, e assim recebendo a sua variada fruta. Enquanto isso, o gosto da fruta coletada, já não tinha nenhum traço de sabor, nem mesmo a textura que havia me conquistado anos e anos atrás. Quando por fim, notei que estava idoso, e que estava ainda mais faminto do que no dia que encontrei a minha árvore.


Furioso, por ter que compartilhar a minha descoberta com os demais invasores, desci a colina. Aonde antigamente não havia sequer traços de civilização, havia agora uma metrópole pronta a ser desvendada. Entrei em uma loja de construção, me apoderei de um machado, e oferecendo risco aos frequentadores da loja, não tive dificuldade nenhuma em sair de lá com a lâmina na mão.


Subi a colina, mas durante este trajeto, relembrei dos mais doces momentos que havia vivido desde o meu encontro com a minha árvore. E se, no início os passos eram rápidos e corridos, já no final eram minúsculos, atrasando ao máximo o contato.


Defronte da árvore, todos que estavam alimentando-se ficaram assustados. Eu tinha a fome, e precisava me alimentar, e contra esta vontade, nada poderia me deter. Avancei em direção ao tronco, quando ouvi a voz que ressoou em mim: - Me alimentei do seu sofrimento, e ofereci a minha sombra. Tornastes um menino em homem, e assim que me retribui?


Inerte, pela estranheza do fato de dialogar com um tronco, respondi: - Você pode ter se alimentado de mim, mas eu a fiz crescer! Para quê? Entregar os meus desejos, as minhas conquistas, compartilhar com todas as pessoas a sombra que eu descobri? Eu te nutri. Você é a minha árvore, e me fez sofrer tantos anos, só para que eu não deixasse a sua sombra...


Após um breve silêncio, ouvi: - Assim como tendes desejos, e escutei cada um dos vossos com muita cautela, e transformei-os em frutos, para que pudesse come-los até perderem o sentido, eu também os tenho. E apenas com a morte de nossos frutos, poderei voltar a ser semente, e desenvolver-me em outros lugares. A sombra aonde deitou não existe mais grama, o seu corpo marcou a terra, que tornou-se infértil. O excesso de desejos o manteve aqui, te nutriu, e agora desnutrido percebes que devemos partir.


Neste momento, já chorava. Porém, não houve nenhum fruto que crescesse deste tronco. Disse: -Por favor, fique. Eu posso remediar todos os males que cometi, posso replantar todas as gramas. Minhas pernas estão finas, meus braços secos, mas posso me fortalecer e refazer toda esta colina, do zero. Me perdoe! Não desista, se me entende. Não quero voltar a procurar os meus horizontes. Quero voltar na grama!


Neste momento deitei-me na sombra que me abrigou por anos. E as folhas de verdes, tornaram-se opacas em instantes. E começaram a cair no meu rosto, e fiquei coberto pelas cinzas das folhas que se tornavam pó. Enquanto a copa da mais linda árvore se desfazia, eu urrava e gritava. Os gritos animalescos, e todos os que outrora se alimentaram

, partiram-se.

Nenhum comentário:

Postar um comentário