quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Você vai voltar: Tempo inteiro. (Professora Sueli)

"Com luz, a comida fica mais saborosa".

Mais uma foto de Instagram. Armazenamento inútil de um casal insosso. Deveriam flashearem-se pra ver ficarem apetitosos. Filtro Madrid, para a mulher sem sal. Filtro Catanduva para o adversário. Filtro Alaska para aquele encontro. O sorvete retratado era o mais calorento entre os três.

Peço o Mojito. Sem açúcar. Sem flash.

O balcão de acetato está marcado já pelo frio do copo. O garçon posiciona sobre o mesmo círculo, a mesma frieza. A mesma rotina. Abraça o copo com guardanapo branco e diz: "Cuide do jardim. As borboletas aparecerão".

Hoje não tô pra Ceasa. Quero ser consumido.

No canto, o sofrido baixo desmonta o silêncio. Notas secas, duras. eretas. As sombras encobrem o rosto, vejo só o braço dançando entre as cordas. Ritmo. Cadência. Força. Solo. Arrepio. Pausa. Mojito.

Não só consumido. Mas morder.

Enfim o casal discute. O pudim retratato teve validade maior que o relacionamento. Deixam-nos: Eu, sobremesa, drink, e garçom. Estico a mão, trago o doce, embebedo meu dedo na calda e circulo a boca do meu copo. A doçura do açúcar me faz lembrar.

Eu só queria sua doçura. Sua mão.

Vejo ao lado as pernas se cruzando. Seu antebraço afasta-me do copo, empurra-o, aproxima-se. Seu rosto cola junto ao meu. Apresenta com um hálito quente: Sou a Deusa do Desejo. Diz que poderá atender os meus pedidos, e teria que oferecer em troca, pelo tempo que ela quiser. A encarnação do desejo me olha.

Ela ainda vai voltar. O cheiro dela ainda sinto.

Olho pro lado. Ela fala. Não para. Explica regras. Conta dedos. Unhas vermelhas. Dedos finos. Mão clara. Harmonicamente: Olhos escuros; Cabelos longos. Prossegue nos detalhes. Boca macia. Rosa. Cor dos mamilos, provavelmente. Ombros curvados. Sem sutiã aparente. Ela respira e pausa. Enfio a mão entre suas pernas, puxo seu banco colado ao meu. Suas regras: meus atos. Aproximo lentamente e cravo: Eis como a sua engenharia funcionará comigo.

Hey, Deusa do Desejo. É você que irá urrar por mim. 


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O Cutelo



23/06/2017: O CUTELO, Rev.05





O cunhar do sentido da vida, não é definido pelos porquês, oquês e quandos.
Entende-se apenas sob o cuidadoso olhar do comos.


O final dele será o mesmo que o seu. O como levou a sê-lo, não. (confuso)


E foi assim que, em uma reunião familiar, dominical, comum, sem nenhuma grande festividade que valesse descrição, que se iniciou a nossa história.


Viemos para o mundo como um singelo menino, o filho de um pai, que pai sequer soube ser.


Criança esta que cresceu tragicamente, já que carregou junto à sua narrativa ímpar, em paralelo ao seu corpo e tangente ao seu coração, um cutelo de açougueiro, violentamente cravado em suas costas.


Tal fato deu-se após o Pai entender, devidamente alcoolizado, a causa pelos quais seus desejos haviam sido afastados de sua realização. Elucidou o ofuscamento de seus prazeres: um objeto que sua desejada esposa carregava já havia 8 meses no ventre.


E em um instante de lucidez, muniu-se de liberdade, tesão e coragem e traduziu-os em um violento golpe, segurando em sua mão um afiado cutelo de cabeça quadrada, desferindo-o contra o ventre de sua amada, exclamando:


Se eu não tenho, tome a racha!


E tal dilaceração cicatrizou três pessoas: O pai, foi carregado à prisão por obitar a sua mulher; a mãe, que levada ao hospital, necessitou ser cortada ao meio para dar a luz ao seu rebento. E por último, o filho, o menos afetado de todos, que nasceu com uma lâmina de inox cravado (cravada) em seu minúsculo corpo, fincado em suas costas.


O cirurgião responsável pela separação entre a vida e a morte do cutelado, ao entregar o infante nas mãos do mundo, informou que a criança haveria de ter uma vida comum e ordinária, onde seus amores, desejos e concretizações seriam limitadas à influência do objeto que carregava em seu corpo, à milímetros dos ventrículos do seu coração, e advertiu:


Qualquer contato junto à este cutelo contemplará o desejo final do pai.


E senhores, acreditem. A nossa narrativa poderia ter sido contada pela ótica de um cutelo, que desejou interromper as vontades de uma pessoa. Porém, asseguro-lhes que isto seria uma história triste, o que não teremos neste breve relato.


Caso o assunto ainda lhe cause algum espanto, não confira tal sentimento à condição da criança. Houveram dias de felizes manhãs, de brincadeiras remotas, de instantes alegres. No tempo de ser criança, permite-se um contato quase ausente às diferenças, descaracterizando-as com uma leveza incompreensível aos adultos. E em pouco tempo existindo, soube precisamente entender os contornos dos seus atos, e a sua condição única. Acreditem, diferentemente do que se esperava, a criança desenvolveu-se paralelamente às outras, apenas carregando junto à si um conhecimento íntimo, de aprender a se afastar em momentos de contato.


O passar das horas, dias, meses, vividos sob o rígida inscrustação metálica, conduziu o agora moço às trevas da juventude, lar dos descobrimentos e prazeres. E se o contato não lhe era permitido, pôde visualizar todas as suas fantasias e realizá-las, olhando os seus arredores através do reflexo do corpo quadrado na sua lombo, ou conjugando-se através das sombras que projetava a cada encontro com a luz. Para cada desejo reprimido e incompleto, houve uma realização possível em um rebatimento, pelo qual ele via-se livre e atuante, longe de seu encontro singular. E a cada encontro no universo paralelo que se dava, junto com a satisfação alcançada, o cutelo, por sua vez, expandia-se em suas costas.


Segundo a segundo, sucessivamente, pasmem todos, o adulto aconteceu. Nascido sem mãe nem pai, crescido sem o calor de um cobertor, sem um abraço de amizade, dormindo apenas de cócoras, o tempo enfim lhe chegou.


Soube curiosamente que estava velho, quando as pernas que tanto tempo carregaram o pesado fardo de dois corpos indissolúveis, não conseguiram conduzir o tamanho conjunto. O corpo do homem não é estruturado com a mesma resiliência de uma criança, e ao notar que seus joelhos se dobravam e o jogavam-o ao solo, o adulto caiu. Tentou arrastar-se no chão, porém o cabo do Cutelo se travava e segurava-o como um arado.


E por fim, descontrolou-se e entregou-se aos prantos, fazendo assim chover em todo o seu redor. E agora a chuva, que tornou-se tempestade, que esperava há tempos para acontecer, violentava-o, humilhando gota por gota, trovoava todas as suas conquistas inalcançadas, os amores perdidos, a sua existência incompleta.


E a cada gota que lhe atingia, movimentava o Cutelo em seu corpo. À cada palavra de ordem, um passo rumo ao seu núcleo. E anos de humilhação, desistência, negação, gota à gota, acertavam o rosto do adulto, enfim entregue.


Resignado e sabedor da sua limitação e deficiência, fechou os olhos para não mais rever-se.


Ouviu, uma por uma, as gotas diminuírem suas falas.


Silenciosamente, ouviu seu coração batendo.


Até que houve o silêncio.


A tempestade ainda prosseguia incansavelmente ao seu redor, porém seu contato acontecia apenas em um espaço mais distante, mais próximo do horizonte. As quietas ofensas, que desesperavam-se para atingir o adulto, eram rebatidas por um imenso cutelo, de proporções compatíveis com as dores de anos de afastamento, reteve gota a gota, e que cada investida que rebatia, perdia o seu brilho inoxidável.


E por fim, a chuva cessou.


E o cutelo perdeu sua capacidade de refletir,tornando-se opaco, sem nenhum reflexo, nem sequer uma sombra.


O objeto que por tantos anos o garantiu-lhe uma vida de limitações, e que ao final das contas, havia protegido-o do mundo. Assim, como se um fardo tornasse um presente, chegara então a hora do agradecimento.


Tal fato deu-se em uma visita dominical.


Ambos eram homens, cutelado e cutelador, de frente após anos do violento ocorrido. E entreolharam-se por instantes.


O primeiro passo foi dado pelo filho, indo em direção ao pai.


O mesmo, repetiu o movimento do filho.


O pai estendeu-lhe a mão.


O filho abraçou o pai.


O pai abraçou o filho


E olhando de longe, viu-se um cutelo atravessando as costas de um adulto; em seguida de outro. Os dois corpos estavam travados e construídos juntos, soldados por um velho cutelo.


E nesse encontro, formou-se uma poça de sangue sob os pés de ambos.





E desse sangue, emergiu um homem, que partiu a caminhar, agora sem a sombra nem reflexo de nenhum cutelo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A árvore dos Desejos



Isso tudo aconteceu poucos anos após a Grande Depressão. O mundo havia mudado, e entre os famintos andarilhos, que procuravam sentido em seus passos descalços, já não havia mais rota, sequer destino a ser percorrido. A direção diária, o mantra do nascer do sol, era sempre o mesmo: era preciso saciar a fome.


O grande truque de sobreviver é mimetizar. Portar-se sem representar ameaça, e infantilizar-se para não ser hostil. Eventualmente, correr. E assim, passar pelos meandros desapercebido, transparecer-se, reduzir a sua forma, e por fim, apropriar-se dos padrinhos que lhe aparecerem durante a sua jornada.


O meu porte infantil me permitiu esconder-me dos riscos, e como gastava pouca energia, a sobrevivência me era mais simples. Diversas foram as minhas famílias, por vários nomes já atendi, enquanto os abrigos me eram oferecidos. Porém, a fome, minha grande amiga, e desesperadora aliada, ensinava-me a conduzir o meu próprio caminho, enquanto meus pares definhavam-se, com os ossos cobertos apenas pela pele no esfriar das noites.


E as noites e dias mesclaram suas cores, se tornando um cinza gigantesco todos os meus momentos.


Este conto é sobre este dia. Certa vez, rastejava minhas secas pernas em busca de alimento. Um passo após o outro, me trouxeram para o topo daquela colina, na qual encontrei a minha frondosa árvore. Os bajuladores seguintes dirão que a sua semente foi trazida pelo vento, não se sabe exatamente daonde, já que não há relato no universo de nenhuma espécie com tais propriedades que vos contarei a seguir. E desde que conto esta história, e isso acontece há algum tempo, jamais alguém soube me dizer de outra árvore que se assemelhasse a esta.


Particularmente, era uma árvore das mais simples. A colina, também. Possuía uma copa de tamanho indiferente as demais, sem raízes grossas ou fartas, indiferenciada, porém produzia uma sombra, que somente aquele que se deitasse no conforto dela, teria uma visão clara e protegida do céu que se abria entre as suas galhadas.


Sentei ao lado do seu tronco e entre as suas raízes, e pude ver todos os arredores deste minúsculo vale que me encontrava, o qual todos nós nasceremos e morreremos. Ter uma visão clara para perceber a atividade dos demais moradores, odiá-los e amá-los remotamente, pois quem se escondia na sombra da árvore, poderia ver tudo e pouco ser visto.


O que vos conto, amigos, não me lembro bem quando aconteceu pela primeira vez. A particularidade desta árvore, que somente eu conhecia inicialmente, descobri ao acaso.


Repousando-me sob as suas galhadas, sonegava o inferno dos dias-a-dias cochilando eventualmente. e no meu mundo onírico, o frescor daquela sombra me permitiu sonhar, condensando a realidade em uma sensação leve de eternidade. Houveram outras árvores, mas somente quando me sentei sob aquela sombra foi que o meu corpo se integrou completamente ao ambiente.


Muito feliz pela minha particularidade, ja que havia descoberto uma sombra tão agradável, sorri. Já deitado no gramado, segurando os seus galhos que desciam em minha direção, sentia-os, e cheirava-os. Estas lindas rugas que carrego ao lado da minha boca vieram desta etapa da minha vida, aonde o sorriso me acompanhara durante anos.


Este breve relato que vos faço, amigos, pode parecer ter sido muito rápido, mas a cada dia que passava admirando o meu esconderijo secreto, correspondia a anos nas vidas alheias á esta comunhão.


Mas tudo isso seria comum as demais árvores, exceto pelo que vos conto agora.


Como faminto, que vos disse que era, minhas esperanças consistiam em olhar no horizonte de uma paisagem, e condensá-la, e acreditar que todas as vocações e sofrimentos que eu tinha cessariam assim que encontrasse o meu abrigo seguro e definitivo. E por anos andei em busca do horizonte.


E neste belo dia, cansado dos passos que havia dado, e por fim, com medo de nunca encontrar o meu sonhado repouso, chorei. Não foi um choro contido, porém copioso e sonoro. Me escorriam pelos cantos do rosto descontroladamente as lágrimas, que logo atingiram o chão. E fez-se o espetáculo deste conto que vos relato. Sim porquê, cada gota que escorria no meu rosto, a árvore absorvia e gerava uma fruta encorpada, logo acima dos meus olhos mareados. E esse pêssego, esse manjar, era deliciosamente saboroso, rico em cores e textura de uma pele que jamais hei de esquecer. Para um andarilho, poderia chamar aquilo de milagre, de oferenda. Eu encarei aquele momento como o meu "encontro". Ao acaso, sob a tutela do destino, havia encontrado o meu horizonte. E decidi encerrar a minha busca naquele momento, sob as galhadas que me deslizavam sobre o rosto.


E como vos disse, outra propriedade desta árvore, nota-se em uma compactação do tempo. Somente quem amou, ou sente que pode se amar, notará que o tempo é irrelevante nos períodos destinados aos encontro da alegria.


E o tempo, que outrora fora de desgraças, foi sendo retomado pela ordem da sociedade. O ambiente foi sendo reconstruído as margens daquela colina, enquanto eu ainda me deleitava pelos suculentos frutos diversos que eram extraídos das minhas lágrimas. E assim, o tempo passou diante dos olhos da árvore e daquele que em sua sombra repousavam, pois haviam esquecido de olhar para os outros horizontes.


Enquanto a árvore crescia, cada vez mais chamativa e frondosa, inincomparável com as dimensões do primeiro encontro, eu, por minha vez, encontrava-me cada dia mais faminto, pois os frutos já começavam a sentir um gosto de aguado. E assim, a árvore desenvolvia, e seus galhos tornaram-se mais altos que as colinas que a escondiam no vale.


E assim, transeuntes, pouco famintos, descobriram o meu segredo, a minha sombra. Eram aos pares, que sentavam-se ao meu lado, chorando cada um por sua vez, e assim recebendo a sua variada fruta. Enquanto isso, o gosto da fruta coletada, já não tinha nenhum traço de sabor, nem mesmo a textura que havia me conquistado anos e anos atrás. Quando por fim, notei que estava idoso, e que estava ainda mais faminto do que no dia que encontrei a minha árvore.


Furioso, por ter que compartilhar a minha descoberta com os demais invasores, desci a colina. Aonde antigamente não havia sequer traços de civilização, havia agora uma metrópole pronta a ser desvendada. Entrei em uma loja de construção, me apoderei de um machado, e oferecendo risco aos frequentadores da loja, não tive dificuldade nenhuma em sair de lá com a lâmina na mão.


Subi a colina, mas durante este trajeto, relembrei dos mais doces momentos que havia vivido desde o meu encontro com a minha árvore. E se, no início os passos eram rápidos e corridos, já no final eram minúsculos, atrasando ao máximo o contato.


Defronte da árvore, todos que estavam alimentando-se ficaram assustados. Eu tinha a fome, e precisava me alimentar, e contra esta vontade, nada poderia me deter. Avancei em direção ao tronco, quando ouvi a voz que ressoou em mim: - Me alimentei do seu sofrimento, e ofereci a minha sombra. Tornastes um menino em homem, e assim que me retribui?


Inerte, pela estranheza do fato de dialogar com um tronco, respondi: - Você pode ter se alimentado de mim, mas eu a fiz crescer! Para quê? Entregar os meus desejos, as minhas conquistas, compartilhar com todas as pessoas a sombra que eu descobri? Eu te nutri. Você é a minha árvore, e me fez sofrer tantos anos, só para que eu não deixasse a sua sombra...


Após um breve silêncio, ouvi: - Assim como tendes desejos, e escutei cada um dos vossos com muita cautela, e transformei-os em frutos, para que pudesse come-los até perderem o sentido, eu também os tenho. E apenas com a morte de nossos frutos, poderei voltar a ser semente, e desenvolver-me em outros lugares. A sombra aonde deitou não existe mais grama, o seu corpo marcou a terra, que tornou-se infértil. O excesso de desejos o manteve aqui, te nutriu, e agora desnutrido percebes que devemos partir.


Neste momento, já chorava. Porém, não houve nenhum fruto que crescesse deste tronco. Disse: -Por favor, fique. Eu posso remediar todos os males que cometi, posso replantar todas as gramas. Minhas pernas estão finas, meus braços secos, mas posso me fortalecer e refazer toda esta colina, do zero. Me perdoe! Não desista, se me entende. Não quero voltar a procurar os meus horizontes. Quero voltar na grama!


Neste momento deitei-me na sombra que me abrigou por anos. E as folhas de verdes, tornaram-se opacas em instantes. E começaram a cair no meu rosto, e fiquei coberto pelas cinzas das folhas que se tornavam pó. Enquanto a copa da mais linda árvore se desfazia, eu urrava e gritava. Os gritos animalescos, e todos os que outrora se alimentaram

, partiram-se.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cenas de um próximo capítulo

"Você é aquilo que deseja. Você e o seu desejo são as mesmas linhas de uma trama, que correm em paralelo ao tempo que escolhe viver".

E empunhando um cutelo de açogueiro, profissionalmente projetado para destroncar o bico do peito de aves, o Pai partiu em direção a minha mãe.

- Se não me dá a racha, uma outra racha você vai ter.

E sonoramente, acertou a barriga de minha geradora. A pele rasgou-se como um fino tecido de cachemira, rompendo as tramas, até encontrar resistência em um conjunto de ossos. Antes de fugir, olhou para o rasgo, paralelo ao corte da vagina, e reparou no alinhamento entre os dois traços.


-------------Texto original ------------------
O final dele é o mesmo que o seu. O que levou a sê-lo, não. Todos conhecem a tragédia da vida, por´m poucos conviveram com um cutelo nas costas.

Filho de um pai, foi criado por um homem que não soube ser, nem pai sequer. Em uma corriqueira embriaguês, suspeito da fisionomia avessa do filho, cutelou-o. Empunhou sua força contra as costas do filho com uma faca caprichosamente afiada para a ocasião de um churrasco que nunca haveria de conhecer.

Foi o último contato visual que tivera, cada um para a sua cela. O pai cumpriria regime semi-aberto, o filho por 4 dias integrais na mesa de cirurgia. Reconstruíram os ossos, as firas da escápula, porém estranhamente o cutelo havia se incorporado ao seu corpo, totalmente aceito aço com músculo, madeira com pele.

Curiosamente, assim como a ponta afiada, os dias perfuraram-se e logo tornaram-se meses, e depois anos, sempre comemorando o dia 20 de Agosto como marco de esfaqueamento que transformou em ilha o continente de uma familiaridade forçada.

Imagine pois, que o mais incrível desta estória, reside no fato em que a vítima, portador de uma violência no lombo recebeu do doutor em ciências do hospital i veredito que jamais encostaria-se em mais nada

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Rolo


tudo começou quando Francisco Beraldo, mais conhecido como Chiquinho do Motion, quebrou o pescoço ao tentar plantar bananeira em cima do muro. Aquele período no hospital deu para Chiquinho algo que ele desconhecia até então... tempo para pensar



poder ser homem elástico por um dia pra poder se jogar na frente do carro, do precipício, do avião, entrar numa briga e não se machucar, poder ser aventureiro sem consequências pesadas

Poder comer o quanto quiser sem engordar(importante) e sem nunca perder o gosto pelas coisas simples.
Melhor... poder ter tudo na vida que quiser - fortuna, fama, luxúria e tal - e poder voltar no tempo já com a certeza de que hj vc é mais feliz do que qd teve tudo isso.... Acho que está relacionado ao que escrevi em cima

Poder acessar o subconsciente com uma interface a la windows/finder, organizado em pastas pra fazer uma sessão com pipoca de si mesmo+gravador de sonhos.
DOKODEMO DOA
Ou Dokodemo Door, do Doraemon. É uma porta tecnológica trazida pelo gato-robo Doraemon, que dá acesso a onde você desejar!
Acho q é a única coisa q realmente queria que existisse

Ser vc, mas poder ter uma "direção automática" que durante um periodo vc consegue ver vc mesmo como terceira pessoa
TIpo, tirar ter um botão de on/off das suas lembranças/inconsciente? hah

Na verdade tirei um pouco disso de uma explicação sobre radiestesia... mas não estudei ainda direito pra poder entender
Ela disse que tira as infos de um "google" de energia... de todas as ondas/energias do inconsciente do mundo (passado-presente) vão para um google gigante
Ela generalizou bem para responder aos meus por quês hahah. Ela tb acabou de começar a estuda


Capítulo 01: O Outono

As tardes de outono sempre foram desafiadoras para Francisco Beraldo. 

Talvez teria sido pelo permanente esfriamento dos seus dedos dos pés, pela tristeza que sentia ao ver as folhas secando e caindo acima do muro de arrime de sua miserável casa, ou talvez porquê estivesse há 2 semanas sem ver nenhuma criatura que interagisse com a sua solidão.

Por mais que pedisse para ficarem unidas junto aos galhos, as folhas incessantemente caiam. Melancolicamente, Chiquinho murchava cada vez mais, e mais, e entre os suspiros, decidiu que por fim, iria se levantar da cama e ir em direção da sua limpíssima pia, para saborear o resto do café que havia feito para comemorar seus 32 anos de idade.



pelo reconhecimento junto às folhas que se secavam e caíam acima do muro de arrime de sua miserável casa, ou talvez por outro motivo que ainda desconheço, o homem que também era conhecido por Chiquinho, decidiu que deveria tentar algo diferente para desamalgamar a névoa cinza que cercava a sua ânima naquele dia de quarta-feira, ímpar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Meu Amigo Mau (ou dentre todas as pessoas no Universo, escolha se amar).



Mau.

Foi assim que se apresentou. Calma e lentamente, pronunciou em apenas um som o nome que seria como um doce para mim. O assunto abordado era o mesmo que em tantas noites passamos adentro, navegando em nossas conversas: a impermanência.

Dito isto, pulamos a etapa do conhecimento, das mesmices que tanto feriram, e que ainda ferem quando lembro.

A presença do Mau era difícil de explicar. Quando eu o via, eu o tinha. Quando não estava comigo, eu o sentia. E essa era a característica deste espécime em particular: os seus olhos comportavam toda a alegria e tristeza do mundo inteiro. Dizem, aliás, dizia a minha deliciosa vovó: "Os ombros de um homem devem suportar a carga e o peso de um mundo". E no caso o ombro estava no brilho do seu olhar, inquieto e irresistível.

Eu particularmente, havia deixado a vontade de amar.

E o meu coração secou. E tudo se tornou acinzentado. E todos os meus dias, incessantes, eram tranquilos e quietos. E o meu travesseiro, tornou-se o maior amigo meu, Tornou-se um amante, já que nos seus braços, chorei incessantemente, e nos momentos mais alegres, contava-lhe piadas.

E assim, me camuflei no Oceano de emoções e deixei o meu barco a deriva.

E viver em sociedade é sofrer sozinho. É gargalhar do erro, do fracasso.

E sempre evitar o espelho. O reflexo da alma mostra todos os desvios evasivos da nossa escolha da vida. E, em um dia que o reflexo fez-se presente, ouvi o nome daquele que relato nesta página: o seu início, o seu meio, e o seu fim. Mas, discutir o fim de uma impermanência é algo basicamente errôneo. O propósito desta página é absolutamente outra. Vou explicar aqui  a minha história de afeto.

Estava naquela posição que eu considerava feliz, sentada, olhando e projetando-me na vida dos transeuntes. Ele chegou com um café, e me entregou. Como já contei, apresentou-se com um sonoro nome, e sem hesitar, pegou a minha mão e colocou-a junto da sua. Disse-me: "Uma vida como a sua não deveria ser tão passível de projeções. Desintegre-se mais, e encontre-se em outros sentimentos, não em outras pessoas".

E assim, pela primeira vez, sumiu diante dos meus olhos. E brotou em mim, pela primeira vez em anos, um sorriso verdadeiro, e assim soube que eu estava finalmente no caminho certo de encontrar alguém que eu havia perdido em meus passos: a minha própria compreensão. Olhei ao meu redor, e desapareceram em sequência: os pedestres, os objetos de cima da mesa, as cadeiras, e por fim, eu estava boiando sobre a minha xícara de café.

Mergulhei até o fundo da xícara, e me deparei comigo mesmo, com o meu rosto, meus olhos, acordando. E assim, tinha o meu pequeno segredo escondido, aonde somente eu mesmo poderia acessá-lo. Quem diria que o meu encontro perfeito se daria em universo paralelo ao meu? Digo paralelo, pois trilhava junto ao meu caminho principal, aquele que transparece. Aquele que é a vitrine, e a representação.

E o lado Mau finalmente havia aparecido para me acompanhar, me questionar, me destruir, para por fim, se ainda merecesse o título, poderia responder pelo nome e a honraria de ser chamado de homem, e assinar a minha passagem com o termo VIDA.

E assim foram todas as suas aparições. Vinha meu tempo, se ausentava, meu estômago revirava, enquanto os seus questionamentos eram metralhados aos pares. Magicamente, desaparecia quando os quês apontavam para a sua existência, O Mau não gostava de ser avaliado, e esvaía-se sempre que me aproximava dele.

Até que um dia, me entreguei a uma dúzia de Gins, para aumentar o alcance dos meus sonhos, reter o foco, entregar-me e compreender a sua existência. E lá estava o Mau. E a cada instante, seu corpo mudava de forma, tamanho e principalmente de idade. Sou uma criança, enquanto a sua barba branca caía sobre a boca, dizia ele. E retrucava dizendo "Sou um idoso", berrando em um corpo de recém-nascido. E as perguntas, feitas para este incrível corpo disforme, iniciaram. Um após o outro, foram ignoradas na sequência.

Até que me disse aos berros, e chorando: "Meu pequeno amor, esta forma que movimenta-se tão livremente, chama-se Fome. Eu sou a sua fome, tantas vezes ignoradas, tantas vezes deixada esquecida. Eu sou o que se chama de Essência. Beba a minha força, entregue-se ao movimento, e veja com os meus olhos, com a minha companhia, a eternidade da sua existência. E me abraçou, e senti-o fundindo-se em mim. Desde então, nunca mais o vi distante do meu espectro.

O Mau, aquele olhar tão fraterno, tão doce, agora me pertencia. Já respondia agora pelo nome de Vida aos que me chamavam.

E eu era agora a Unidade.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pequeno desejo de criança

Desejo que entregue este presente ao meu hipotético filho, disse eu ao meu reflexo, esticando a mão em direção ao vidro. A imagem recebeu o objeto, um espelho de mão ornamentado, com um curioso reflexo facetado, fruto da esfacelação dos cacos que se despreendiam e que caíam. "Acredito que se ele começar a ver-se todo dia fragmentado, já terá um ponto de partida bem mais maduro que o meu".

Decidi trocar de lugar com o meu reflexo inicialmente por uma imensa preguiça de viver as convenções da vida. Prostar-se atrás de uma imagem, e só de fato presenciar a existência em raros momentos, geralmente após adentrar em ambientes públicos como elevador, ou particulares como em toiletes, me distanciava razoavelmente do meu desenvolvimento. Nada é mais desanimador que olhar-se no espelho, e esperar a instrução seguinte, inutilizando assim de qualquer conhecimento determinante como sucesso ou fracasso.

A obrigatoriedade de ver-se em um reflexo, não podendo trocar a sua imagem por outras, é sem dúvida o processo mais próximo do real que vivencio. Esta única opção já não me é mais suficiente, e decido quebrar o espelho em diversos pedaços. Quero assim ver-me cada vez mais diferente, e conjugar-me no plural.

Posso assim reviver o meu pequeno desejo de criança, astronauta, escritor. As concorrentes facetas me levam cada vez mais para um ambiente deliciosamente rico de esperança. Os reflexos do espelho me mostram imagens de transeuntes olhando-se também, e vivo cada vez mais o brilho de cada sonho alheio ao meu próprio círculo.

Acontece então que a imagem começa a mostrar sinais de velhice. Sim, estou ficando tardio, mas cada vez menos preguiçoso. Mas aonde encontrar-me? Em qual reflexo, e em qual espelho encontro o meu pacto inicial para ser desfeito?