segunda-feira, 26 de julho de 2010

Leander



Leander.

"Nunca saia da sua casa sem uma meia confortável e um canivete afiado". Foi assim que o conheci. Estava fazendo um documentário sobre os portos da África, com fotografias para uma famosa revista, quando sentei-me em uma mureta, para arrumar a meia que machucava as minhas bolhas". No calor, as meias quentes de lã protegem mais que as finas, mesmo que sejam de seda". Sorri. Ele gritou: "Não existe meia de seda, bakáá!". Assustei. Seguiram-se segundos, ou horas de um silêncio, do qual sentia que poderia ter que pagar com a minha vida por um infeliz comentário. "Vá, seu virgem, digue ao Bispo o pecado do Padre!".

Hesitei, mas tirei de dentro de uma sacola de papel uma garrafa de Fogo Paulista. Fervia. Ele se sentou. Olhou francamente pra mim, e tomou-a de minhas mãos. Cheirou o plástico, apertou e acariciou a garrafa flexível e olhou a fotografia do galo estampado em seu rótulo. Tomou um gole de meio litro. Guardou o resto para tomar com um escravo Zulu que tinha na sua casa. Mas explicou: "Eu trato meus escravos com bebida. Esse é o pagamento deles, nunca nenhum quis fugir, aliás, tem até fila de alistamento lá na minha propriedade. Eles fazem a janta, um caldo preto de feijão com carne de porco, e ficam dançando umas danças estranhas com chutes e saltos, bem diferente do que vemos na Europa, pequeno virgem. Eles dizem que assim vão conseguir muita coisa, uma revolução. Eu digo pra eles: Fodam tudo". E apesar de eu não ter nenhuma palavra, ele disse "Você é um cara legal. Deveria ser um terno de bife da segunda". E riu.

Essa fotografia foi tirada dias depois quando fui junto com ele conhecer a maior tormenta que a Mãe Natureza já propiciou ao homem. A ira de Deus voltava-se justamente contra o seu maior pecador, e eu, junto de tudo isso. Enquanto o seu barco cortava as ondas ele piscava e sorria; Dois animais quando reconhecem-se mutuamente tratam com respeito a proximidade da morte. Uma onda maior que a Bandeira do Senegal rompeu ao meio a navegação. "Vou morrer", gritei ou pensei. Leander, agora a besta, virou toda a garrafa de fogo paulista, que ainda trazia consigo. Lacrou a tampa, e atirou a garrafa em mim. "Fechada assim, ela serve de bóia. Nade o mais longe que puder". Colocou o canivete entre os dentes e mergulhou na tormenta. Como já tinha dito, alguém deveria morrer.

Voltei a encontrar o Leander quando fiz um freelance em São Paulo. Ele havia sido resgatado por surfistas que lá trabalhavam totalmente machucado por mordidas humanas. "Me dê comida e água... não aguento mais me mastigar". Quando o revi, não me reconhecia mais. Esqueceu de toda a sua história, de sua passagem. Ou fingia. Havia refeito toda a sua família na outra cidade. Deveria estar sedento por conquistar outra vida mais pacata. Uma vida só é pouco para um colosso desses. Quando despedi-me dele, disse "Adeus, virgem". Suavemente senti uma ponta afiada nas minhas costas e o sussuro: "Bakáá".

E por fim, como disse, jamais ouvirão falar da maior tempestade de todos os tempos. Quando dois animais duelam, um vence, e para o outro, só cabe o esquecimento.