"Com luz, a comida fica mais saborosa".
Mais uma foto de Instagram. Armazenamento inútil de um casal insosso. Deveriam flashearem-se pra ver ficarem apetitosos. Filtro Madrid, para a mulher sem sal. Filtro Catanduva para o adversário. Filtro Alaska para aquele encontro. O sorvete retratado era o mais calorento entre os três.
Peço o Mojito. Sem açúcar. Sem flash.
O balcão de acetato está marcado já pelo frio do copo. O garçon posiciona sobre o mesmo círculo, a mesma frieza. A mesma rotina. Abraça o copo com guardanapo branco e diz: "Cuide do jardim. As borboletas aparecerão".
Hoje não tô pra Ceasa. Quero ser consumido.
No canto, o sofrido baixo desmonta o silêncio. Notas secas, duras. eretas. As sombras encobrem o rosto, vejo só o braço dançando entre as cordas. Ritmo. Cadência. Força. Solo. Arrepio. Pausa. Mojito.
Não só consumido. Mas morder.
Enfim o casal discute. O pudim retratato teve validade maior que o relacionamento. Deixam-nos: Eu, sobremesa, drink, e garçom. Estico a mão, trago o doce, embebedo meu dedo na calda e circulo a boca do meu copo. A doçura do açúcar me faz lembrar.
Eu só queria sua doçura. Sua mão.
Vejo ao lado as pernas se cruzando. Seu antebraço afasta-me do copo, empurra-o, aproxima-se. Seu rosto cola junto ao meu. Apresenta com um hálito quente: Sou a Deusa do Desejo. Diz que poderá atender os meus pedidos, e teria que oferecer em troca, pelo tempo que ela quiser. A encarnação do desejo me olha.
Ela ainda vai voltar. O cheiro dela ainda sinto.
Olho pro lado. Ela fala. Não para. Explica regras. Conta dedos. Unhas vermelhas. Dedos finos. Mão clara. Harmonicamente: Olhos escuros; Cabelos longos. Prossegue nos detalhes. Boca macia. Rosa. Cor dos mamilos, provavelmente. Ombros curvados. Sem sutiã aparente. Ela respira e pausa. Enfio a mão entre suas pernas, puxo seu banco colado ao meu. Suas regras: meus atos. Aproximo lentamente e cravo: Eis como a sua engenharia funcionará comigo.
Hey, Deusa do Desejo. É você que irá urrar por mim.