quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O Cutelo



23/06/2017: O CUTELO, Rev.05





O cunhar do sentido da vida, não é definido pelos porquês, oquês e quandos.
Entende-se apenas sob o cuidadoso olhar do comos.


O final dele será o mesmo que o seu. O como levou a sê-lo, não. (confuso)


E foi assim que, em uma reunião familiar, dominical, comum, sem nenhuma grande festividade que valesse descrição, que se iniciou a nossa história.


Viemos para o mundo como um singelo menino, o filho de um pai, que pai sequer soube ser.


Criança esta que cresceu tragicamente, já que carregou junto à sua narrativa ímpar, em paralelo ao seu corpo e tangente ao seu coração, um cutelo de açougueiro, violentamente cravado em suas costas.


Tal fato deu-se após o Pai entender, devidamente alcoolizado, a causa pelos quais seus desejos haviam sido afastados de sua realização. Elucidou o ofuscamento de seus prazeres: um objeto que sua desejada esposa carregava já havia 8 meses no ventre.


E em um instante de lucidez, muniu-se de liberdade, tesão e coragem e traduziu-os em um violento golpe, segurando em sua mão um afiado cutelo de cabeça quadrada, desferindo-o contra o ventre de sua amada, exclamando:


Se eu não tenho, tome a racha!


E tal dilaceração cicatrizou três pessoas: O pai, foi carregado à prisão por obitar a sua mulher; a mãe, que levada ao hospital, necessitou ser cortada ao meio para dar a luz ao seu rebento. E por último, o filho, o menos afetado de todos, que nasceu com uma lâmina de inox cravado (cravada) em seu minúsculo corpo, fincado em suas costas.


O cirurgião responsável pela separação entre a vida e a morte do cutelado, ao entregar o infante nas mãos do mundo, informou que a criança haveria de ter uma vida comum e ordinária, onde seus amores, desejos e concretizações seriam limitadas à influência do objeto que carregava em seu corpo, à milímetros dos ventrículos do seu coração, e advertiu:


Qualquer contato junto à este cutelo contemplará o desejo final do pai.


E senhores, acreditem. A nossa narrativa poderia ter sido contada pela ótica de um cutelo, que desejou interromper as vontades de uma pessoa. Porém, asseguro-lhes que isto seria uma história triste, o que não teremos neste breve relato.


Caso o assunto ainda lhe cause algum espanto, não confira tal sentimento à condição da criança. Houveram dias de felizes manhãs, de brincadeiras remotas, de instantes alegres. No tempo de ser criança, permite-se um contato quase ausente às diferenças, descaracterizando-as com uma leveza incompreensível aos adultos. E em pouco tempo existindo, soube precisamente entender os contornos dos seus atos, e a sua condição única. Acreditem, diferentemente do que se esperava, a criança desenvolveu-se paralelamente às outras, apenas carregando junto à si um conhecimento íntimo, de aprender a se afastar em momentos de contato.


O passar das horas, dias, meses, vividos sob o rígida inscrustação metálica, conduziu o agora moço às trevas da juventude, lar dos descobrimentos e prazeres. E se o contato não lhe era permitido, pôde visualizar todas as suas fantasias e realizá-las, olhando os seus arredores através do reflexo do corpo quadrado na sua lombo, ou conjugando-se através das sombras que projetava a cada encontro com a luz. Para cada desejo reprimido e incompleto, houve uma realização possível em um rebatimento, pelo qual ele via-se livre e atuante, longe de seu encontro singular. E a cada encontro no universo paralelo que se dava, junto com a satisfação alcançada, o cutelo, por sua vez, expandia-se em suas costas.


Segundo a segundo, sucessivamente, pasmem todos, o adulto aconteceu. Nascido sem mãe nem pai, crescido sem o calor de um cobertor, sem um abraço de amizade, dormindo apenas de cócoras, o tempo enfim lhe chegou.


Soube curiosamente que estava velho, quando as pernas que tanto tempo carregaram o pesado fardo de dois corpos indissolúveis, não conseguiram conduzir o tamanho conjunto. O corpo do homem não é estruturado com a mesma resiliência de uma criança, e ao notar que seus joelhos se dobravam e o jogavam-o ao solo, o adulto caiu. Tentou arrastar-se no chão, porém o cabo do Cutelo se travava e segurava-o como um arado.


E por fim, descontrolou-se e entregou-se aos prantos, fazendo assim chover em todo o seu redor. E agora a chuva, que tornou-se tempestade, que esperava há tempos para acontecer, violentava-o, humilhando gota por gota, trovoava todas as suas conquistas inalcançadas, os amores perdidos, a sua existência incompleta.


E a cada gota que lhe atingia, movimentava o Cutelo em seu corpo. À cada palavra de ordem, um passo rumo ao seu núcleo. E anos de humilhação, desistência, negação, gota à gota, acertavam o rosto do adulto, enfim entregue.


Resignado e sabedor da sua limitação e deficiência, fechou os olhos para não mais rever-se.


Ouviu, uma por uma, as gotas diminuírem suas falas.


Silenciosamente, ouviu seu coração batendo.


Até que houve o silêncio.


A tempestade ainda prosseguia incansavelmente ao seu redor, porém seu contato acontecia apenas em um espaço mais distante, mais próximo do horizonte. As quietas ofensas, que desesperavam-se para atingir o adulto, eram rebatidas por um imenso cutelo, de proporções compatíveis com as dores de anos de afastamento, reteve gota a gota, e que cada investida que rebatia, perdia o seu brilho inoxidável.


E por fim, a chuva cessou.


E o cutelo perdeu sua capacidade de refletir,tornando-se opaco, sem nenhum reflexo, nem sequer uma sombra.


O objeto que por tantos anos o garantiu-lhe uma vida de limitações, e que ao final das contas, havia protegido-o do mundo. Assim, como se um fardo tornasse um presente, chegara então a hora do agradecimento.


Tal fato deu-se em uma visita dominical.


Ambos eram homens, cutelado e cutelador, de frente após anos do violento ocorrido. E entreolharam-se por instantes.


O primeiro passo foi dado pelo filho, indo em direção ao pai.


O mesmo, repetiu o movimento do filho.


O pai estendeu-lhe a mão.


O filho abraçou o pai.


O pai abraçou o filho


E olhando de longe, viu-se um cutelo atravessando as costas de um adulto; em seguida de outro. Os dois corpos estavam travados e construídos juntos, soldados por um velho cutelo.


E nesse encontro, formou-se uma poça de sangue sob os pés de ambos.





E desse sangue, emergiu um homem, que partiu a caminhar, agora sem a sombra nem reflexo de nenhum cutelo.