"Você é aquilo que deseja. Você e o seu desejo são as mesmas linhas de uma trama, que correm em paralelo ao tempo que escolhe viver".
E empunhando um cutelo de açogueiro, profissionalmente projetado para destroncar o bico do peito de aves, o Pai partiu em direção a minha mãe.
- Se não me dá a racha, uma outra racha você vai ter.
E sonoramente, acertou a barriga de minha geradora. A pele rasgou-se como um fino tecido de cachemira, rompendo as tramas, até encontrar resistência em um conjunto de ossos. Antes de fugir, olhou para o rasgo, paralelo ao corte da vagina, e reparou no alinhamento entre os dois traços.
-------------Texto original ------------------
O final dele é o mesmo que o seu. O que levou a sê-lo, não. Todos conhecem a tragédia da vida, por´m poucos conviveram com um cutelo nas costas.
Filho de um pai, foi criado por um homem que não soube ser, nem pai sequer. Em uma corriqueira embriaguês, suspeito da fisionomia avessa do filho, cutelou-o. Empunhou sua força contra as costas do filho com uma faca caprichosamente afiada para a ocasião de um churrasco que nunca haveria de conhecer.
Foi o último contato visual que tivera, cada um para a sua cela. O pai cumpriria regime semi-aberto, o filho por 4 dias integrais na mesa de cirurgia. Reconstruíram os ossos, as firas da escápula, porém estranhamente o cutelo havia se incorporado ao seu corpo, totalmente aceito aço com músculo, madeira com pele.
Curiosamente, assim como a ponta afiada, os dias perfuraram-se e logo tornaram-se meses, e depois anos, sempre comemorando o dia 20 de Agosto como marco de esfaqueamento que transformou em ilha o continente de uma familiaridade forçada.
Imagine pois, que o mais incrível desta estória, reside no fato em que a vítima, portador de uma violência no lombo recebeu do doutor em ciências do hospital i veredito que jamais encostaria-se em mais nada
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