quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pequeno desejo de criança

Desejo que entregue este presente ao meu hipotético filho, disse eu ao meu reflexo, esticando a mão em direção ao vidro. A imagem recebeu o objeto, um espelho de mão ornamentado, com um curioso reflexo facetado, fruto da esfacelação dos cacos que se despreendiam e que caíam. "Acredito que se ele começar a ver-se todo dia fragmentado, já terá um ponto de partida bem mais maduro que o meu".

Decidi trocar de lugar com o meu reflexo inicialmente por uma imensa preguiça de viver as convenções da vida. Prostar-se atrás de uma imagem, e só de fato presenciar a existência em raros momentos, geralmente após adentrar em ambientes públicos como elevador, ou particulares como em toiletes, me distanciava razoavelmente do meu desenvolvimento. Nada é mais desanimador que olhar-se no espelho, e esperar a instrução seguinte, inutilizando assim de qualquer conhecimento determinante como sucesso ou fracasso.

A obrigatoriedade de ver-se em um reflexo, não podendo trocar a sua imagem por outras, é sem dúvida o processo mais próximo do real que vivencio. Esta única opção já não me é mais suficiente, e decido quebrar o espelho em diversos pedaços. Quero assim ver-me cada vez mais diferente, e conjugar-me no plural.

Posso assim reviver o meu pequeno desejo de criança, astronauta, escritor. As concorrentes facetas me levam cada vez mais para um ambiente deliciosamente rico de esperança. Os reflexos do espelho me mostram imagens de transeuntes olhando-se também, e vivo cada vez mais o brilho de cada sonho alheio ao meu próprio círculo.

Acontece então que a imagem começa a mostrar sinais de velhice. Sim, estou ficando tardio, mas cada vez menos preguiçoso. Mas aonde encontrar-me? Em qual reflexo, e em qual espelho encontro o meu pacto inicial para ser desfeito?