segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Meu Amigo Mau (ou dentre todas as pessoas no Universo, escolha se amar).
Mau.
Foi assim que se apresentou. Calma e lentamente, pronunciou em apenas um som o nome que seria como um doce para mim. O assunto abordado era o mesmo que em tantas noites passamos adentro, navegando em nossas conversas: a impermanência.
Dito isto, pulamos a etapa do conhecimento, das mesmices que tanto feriram, e que ainda ferem quando lembro.
A presença do Mau era difícil de explicar. Quando eu o via, eu o tinha. Quando não estava comigo, eu o sentia. E essa era a característica deste espécime em particular: os seus olhos comportavam toda a alegria e tristeza do mundo inteiro. Dizem, aliás, dizia a minha deliciosa vovó: "Os ombros de um homem devem suportar a carga e o peso de um mundo". E no caso o ombro estava no brilho do seu olhar, inquieto e irresistível.
Eu particularmente, havia deixado a vontade de amar.
E o meu coração secou. E tudo se tornou acinzentado. E todos os meus dias, incessantes, eram tranquilos e quietos. E o meu travesseiro, tornou-se o maior amigo meu, Tornou-se um amante, já que nos seus braços, chorei incessantemente, e nos momentos mais alegres, contava-lhe piadas.
E assim, me camuflei no Oceano de emoções e deixei o meu barco a deriva.
E viver em sociedade é sofrer sozinho. É gargalhar do erro, do fracasso.
E sempre evitar o espelho. O reflexo da alma mostra todos os desvios evasivos da nossa escolha da vida. E, em um dia que o reflexo fez-se presente, ouvi o nome daquele que relato nesta página: o seu início, o seu meio, e o seu fim. Mas, discutir o fim de uma impermanência é algo basicamente errôneo. O propósito desta página é absolutamente outra. Vou explicar aqui a minha história de afeto.
Estava naquela posição que eu considerava feliz, sentada, olhando e projetando-me na vida dos transeuntes. Ele chegou com um café, e me entregou. Como já contei, apresentou-se com um sonoro nome, e sem hesitar, pegou a minha mão e colocou-a junto da sua. Disse-me: "Uma vida como a sua não deveria ser tão passível de projeções. Desintegre-se mais, e encontre-se em outros sentimentos, não em outras pessoas".
E assim, pela primeira vez, sumiu diante dos meus olhos. E brotou em mim, pela primeira vez em anos, um sorriso verdadeiro, e assim soube que eu estava finalmente no caminho certo de encontrar alguém que eu havia perdido em meus passos: a minha própria compreensão. Olhei ao meu redor, e desapareceram em sequência: os pedestres, os objetos de cima da mesa, as cadeiras, e por fim, eu estava boiando sobre a minha xícara de café.
Mergulhei até o fundo da xícara, e me deparei comigo mesmo, com o meu rosto, meus olhos, acordando. E assim, tinha o meu pequeno segredo escondido, aonde somente eu mesmo poderia acessá-lo. Quem diria que o meu encontro perfeito se daria em universo paralelo ao meu? Digo paralelo, pois trilhava junto ao meu caminho principal, aquele que transparece. Aquele que é a vitrine, e a representação.
E o lado Mau finalmente havia aparecido para me acompanhar, me questionar, me destruir, para por fim, se ainda merecesse o título, poderia responder pelo nome e a honraria de ser chamado de homem, e assinar a minha passagem com o termo VIDA.
E assim foram todas as suas aparições. Vinha meu tempo, se ausentava, meu estômago revirava, enquanto os seus questionamentos eram metralhados aos pares. Magicamente, desaparecia quando os quês apontavam para a sua existência, O Mau não gostava de ser avaliado, e esvaía-se sempre que me aproximava dele.
Até que um dia, me entreguei a uma dúzia de Gins, para aumentar o alcance dos meus sonhos, reter o foco, entregar-me e compreender a sua existência. E lá estava o Mau. E a cada instante, seu corpo mudava de forma, tamanho e principalmente de idade. Sou uma criança, enquanto a sua barba branca caía sobre a boca, dizia ele. E retrucava dizendo "Sou um idoso", berrando em um corpo de recém-nascido. E as perguntas, feitas para este incrível corpo disforme, iniciaram. Um após o outro, foram ignoradas na sequência.
Até que me disse aos berros, e chorando: "Meu pequeno amor, esta forma que movimenta-se tão livremente, chama-se Fome. Eu sou a sua fome, tantas vezes ignoradas, tantas vezes deixada esquecida. Eu sou o que se chama de Essência. Beba a minha força, entregue-se ao movimento, e veja com os meus olhos, com a minha companhia, a eternidade da sua existência. E me abraçou, e senti-o fundindo-se em mim. Desde então, nunca mais o vi distante do meu espectro.
O Mau, aquele olhar tão fraterno, tão doce, agora me pertencia. Já respondia agora pelo nome de Vida aos que me chamavam.
E eu era agora a Unidade.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Pequeno desejo de criança
Desejo que entregue este presente ao meu hipotético filho, disse eu ao meu reflexo, esticando a mão em direção ao vidro. A imagem recebeu o objeto, um espelho de mão ornamentado, com um curioso reflexo facetado, fruto da esfacelação dos cacos que se despreendiam e que caíam. "Acredito que se ele começar a ver-se todo dia fragmentado, já terá um ponto de partida bem mais maduro que o meu".
Decidi trocar de lugar com o meu reflexo inicialmente por uma imensa preguiça de viver as convenções da vida. Prostar-se atrás de uma imagem, e só de fato presenciar a existência em raros momentos, geralmente após adentrar em ambientes públicos como elevador, ou particulares como em toiletes, me distanciava razoavelmente do meu desenvolvimento. Nada é mais desanimador que olhar-se no espelho, e esperar a instrução seguinte, inutilizando assim de qualquer conhecimento determinante como sucesso ou fracasso.
A obrigatoriedade de ver-se em um reflexo, não podendo trocar a sua imagem por outras, é sem dúvida o processo mais próximo do real que vivencio. Esta única opção já não me é mais suficiente, e decido quebrar o espelho em diversos pedaços. Quero assim ver-me cada vez mais diferente, e conjugar-me no plural.
Posso assim reviver o meu pequeno desejo de criança, astronauta, escritor. As concorrentes facetas me levam cada vez mais para um ambiente deliciosamente rico de esperança. Os reflexos do espelho me mostram imagens de transeuntes olhando-se também, e vivo cada vez mais o brilho de cada sonho alheio ao meu próprio círculo.
Acontece então que a imagem começa a mostrar sinais de velhice. Sim, estou ficando tardio, mas cada vez menos preguiçoso. Mas aonde encontrar-me? Em qual reflexo, e em qual espelho encontro o meu pacto inicial para ser desfeito?
Assinar:
Comentários (Atom)
