terça-feira, 29 de junho de 2010

Extrato de Tomate

Finalmente entrava na última curva na fila do caixa.

Sobre a minha cabeça, pouco acima mesmo, uma placa pendurada indicava Caixa Rápido. Rápido? Depende da referência de tempo, eu pensava. Para uma mosca que só vive um dia, só um dia, uma fila de caixa pra ela não seria pouca coisa.

Apitou finalmente o meu número. Caixa 06. Número par. Olho para trás, e sorrio para um Senhor com cara de cobrador de ônibus. Olho para as mãos dele: Molho de tomate Etti. Boa escolha, rende bastante e é o mais em conta naquele mercado. Aceno positivamente com a cabeça para ele. Tenho admiração por bons escolhedores de enlatados em geral. Pessoas ímpares como essa liderarão a Terra assim que retornarem as grandes depressões.

Já no caixa, o habilidoso homem passa os códigos de barra no leitor, enquanto pergunta-me se faltou alguma coisa: Desconto. Ao passar a última lata de um enlatado, que prefiro não propagandear, notei um amassado lateral, que deveria comprometer a eficácea da folha de Flandres. Segurei-o pela mão antes que adicionasse à conta. A pressão o fez soltar a lata, que rolou pela esteira adiante. Peguei-a, e fui trocar por outra marca. Enquanto todos na fila olhavam assustados, os olhos do viado que estava atrás de mim sorria. Era um sorriso de superioridade.

Compartilhávamos o mesmo conhecimento dos enlatados.

Ao lado do repositório dos enlatados, estavam dependurados alguns pedaços de carne salgada e abaixo ficavam as carnes moídas gotejando no chão, formando uma pequena poça de sangue e gordura no ensebado chão daquela espelunca. Uma placa com o valor do quilo da costela refletia dentro daquela mancha avermelhada. Era a arte da metalinguagem do sangue.

Agacho pra fazer a troca. Pego a lata. Amassada. Desolado, olho para a poça. Já não vejo mais o preço da costela. Pelo reflexo, vejo o açougueiro coçando o saco. Só melhora a situação. Olho para baixo, vejo um sapato. Vermelho como o sangue, vivo como o saco do açougueiro. Olho para o lado. Minissaia e coxas. Levanto-me, sem antes me atentar a todos os detalhes do corpo. Devo ter levado mais de um minuto nessa levantada. Era a atendente do setor. A beleza dela não diminuiu a minha irritação quanto a lata. Levantei a lata em sua direção, ela segurou a minha mão. "Flandres" disse ela. Eu acenei com a cabeça. Ela pergunta se quero ir no depósito escolher a melhor lata do mercado. "Seria o primeiro pedido pro gênio da lâmpada que eu faria". Ela sorri. Anda. "Como rebola essa bunda" penso em voz alta. Ela se vira para trás. Eu olho para seus peitos.

Dentro do estoque. Pedaços de carne desciam pela enxorrada da água. Lavavam o açougue. na minha frente um labirinto de prateleiras, não sei direito a altura que chegavam já que a iluminação diminuía a medida que aumentava a altura das latas empilhadas. Diria que iam até o infinito, se me perguntassem.
Meus sonoros passos afundaram-me nas entranhas do estoque. Estava dentro do intestino de um mercado, escolhendo a sua melhor lata. Pra quem desconhece a arte, todas são iguais.


Não para mim. 


Um vinho. A arte de se escolher um vinho nas adegas secretas de todo o mundo. Era assim que me sentia. E dentre centenas de maravilhosas latas, encontrei-a. Prostei-me diante dela. Era perfeita. O calor da mão humana não havia ainda tocado naquele cilindro, estava virgem. Dura segundos o nosso contato visual. Estico a mão, pego-a, e em seguida aparece outra lata ainda mais perfeita. Penso em pegar mais todas, mas isso ia contra o nosso contrato. Deveria apenas substituir uma lata, este era o compromisso que tinha feito. Uma lata apenas.

Sinto primeiro os duros peitos contra as minhas costas. Em seguida, sinto o braço me abraçando. Uma mão se estende, diretamente para a minha braguilha. Enquanto sinto as minhas calças descerem,
todas as latas ainda brilham para os meus olhos. 


Inicio o combate. Vejo agora que sou vítima de uma conspiração. Ninfomaníaca ataca curador de latas de tomate. Desvencilho-me dos braços dela, empurro-a sobre a pilha de carne seca segurando a sua camisete. Ombros aparentam-se e um seio torna-se à mostra. Avanço-lhe e não encontro resistência. Retiro o que sobrou da minha calça, mas fico de meias para contrapor contra o fio do estoque. Olho-a. Ela vira-se de costas apoiando a barriga sobre a carne. Olho para cima. Promoção: Picanha 19,90.

E meto-lhe a linguiça.

Entre os sonoros gemidos e ruídos, decorrentes do movimento vuco-vuco, entrego-me à um prazer diferente ao da busca pela lata perfeita. Diferem na direção, mas ambos possuem a mesma intensidade. Tanto a lata quanto o conteúdo quente ao qual introduzo e extroduzo-me instantâneamente. Percebo que nesse devaneio paro de cumprir com o movimento. Olho para a minha concorrente. Ela reconhece meu devaneio.


Ela sorri. Esfrio. Gelo. Reconheço essa fala.

Respiro. Fecho os olhos, e volto imediatamente trabalhar. Respiro fundo. Forço o quadril contra as coxas da atendente. Sinto-me como uma máquina enfiando tomate dentro da lata. Gosto do pensamento da máquina de lata. mecanismo altamente desenvolvido para preenchimento de lacunas cilíndricas, não erra, nem sente. Um berro irrompe a nossa orquestra. As luzes se apagam. Já era horário de fechamento.

Agora a luz vermelha acende. O galpão fica mais escuro do que já estava, o que parecia antes impossível. Olho para os lados. Já não bombava mais. Olho para a atendente. Linda, mesmo com cabelos sujos de sangue por conta de seu travesseiro de carne. Decido agir.


Fico de pé, pego um pacote límpido de 5kg de arroz, e coloco sob a sua cabeça. A aprovação vem com a atendente entregando-se totalmente agora, virando a barriga para cima. Trabalho maquinalmente, como um conta-gotas, uma máquina de etiquetar preços. Preciso. O mesmo intervalo de entrada e saída. Um operário de picar o cartão. Exercito-me, e lembro-me agora de quanto tempo não fazia isso, já não me lembrava mais de quanto fui bom nisso. Olho para o rosto da minha sedutora. Cabelos escuros, olhos fechados, vejo sua boca costurada e um rosto pálido sobre um travesseiro branco. Vejo minha mãe morta.

O cheiro de formol invade minhas narinas, queimando-as. Já nada posso mais contra esse cheiro. Olho novamente e sim, a mulher quente diante de mim, que geme e grita com minhas entradas, é minha mãe. Fecho os olhos desesperado e abro-os, esperando que passe logo esse vulto. E nada acontece. E percebendo a minha agitação, minha adversária já não geme mais copiosamente. E o cheiro de formol já estava tatuado no meu pulmão.


Faziam alguns anos que não via minha mãe. A reaparição dela, antigamente, me era sempre uma benção. Olho-a com um carinho fraterno, sou sua cria, e cada vez mais ela fica molhada. Beijo-a. Cravo os dedos no pedaço de costela dependurado numa barra de aço, sinto a unha rompendo a gordura da peça. Fecho os olhos, e revejo grande parte da minha pequenez. Passo pela minha primeira infância,
passeios no parque, o último passeio em família, revejo o acidente de papai, minha primeira namoradinha e sob um forte grito abafado pelo saco de arroz, advindo de uma sutil entrada na lomba da atendente, revejo o primeiro namorado da minha mãe. 


Em seguida o segundo, o terceiro. 

Entendo a minha formação como homem, fragmentado por pais instantâneos que me acolhiam semanalmente. E a imagem de mamãe, antes angelical, agora assemelha-se ao desejo.

E por fim, dentre uma gritaria ensurdecedora, lâmpadas oscilando, em uma piscina de sangue escorrendo, tudo torna-se silêncio. Consigo rever minha mãe no sofá nua. Alcoolizada, com seio à mostra, e o meu primeiro contato com o corpo feminino. Jogada, contrato que apenas no plano onírico, Mamãe encontra-se completa. 

Preparo uma macarronada, arrumo a mesa, e sirvo o banquete a carcaça de outrora uma mulher. A idade não me permitia ver que, além de vencida, a lata estava amassada. Delicia-se na vermelhidão do extrato de tomate, jantando em casa, almoçando já na UTI, e descansando antes da janta seguinte. A salmonela jantaria minha mãe. Travesseiro branco, olhos fechados, cheiro de formol.

Abro os olhos. Corro. Deixo a atendente ainda sobre o pedaço de carne, enquanto corro o mais rápido que posso com as calças arreadas, caindo e reerguendo-me na piscina de sangue lavado. Envergonho-me dessas lembranças, corro por um labirinto de molhos de tomate, tento conter o desejo, reprimir minhas lembranças, me esconder em algum sentimento diferente e por fim, contendo todas as minhas sinapses, gozo pelo chão. Choro, corro, calças nos pés. Porta corta-fogos, luz, saída.

Vi pelo jornal da prisão do proprietário do supermercado. "Esperma encontrado em comida para neném". Ainda lia "Pelos pubianos cravados em peça de picanha". Os seres humanos horrorizam-se com isto, mas esquecem que até os bois poderiam ter sido os autores destes atos, afinal, também fodem. Sento-me diante do tapume na fachada do mercado interditado. Um misto de cólera, tristeza invadem o meu corpo, e assim aumento e diminuo o meu tamanho em cada respiração, sem sequer mudar a minha aparência. Sinto saudades da atendente e do seu portal. Não vejo o que eu poderia ter feito de diferente. 


Levanto-me e caminho. Caminho sem rumo, olhando para minha sombra. Rumo sem direção, cabisbaixo, adiante, com o permanente objetivo de reencontrar a mais perfeita das latas de Flandres.

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